A represália, uma difícil decisão.

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Palavras, A represália
O texto abaixo foi escrito por Luis Fernando Veríssimo em sua coluna de domingo no jornal Zero Hora, é muito engraçada por isso vou reproduzir aqui.

A Cleide chegou da rua furiosa. Atirou as compras do super em cima da mesa da cozinha e declarou:

– O seu Hermínio passou a mão na minha bunda!

O Oscar tinha recém se sentado para ver o Jornal Nacional. Disse:

– O quê?

– O seu Hermínio passou a mão na minha bunda.

– Quando? Onde?

– Agora mesmo. No elevador.

– O seu Hermínio?! Do 602? Eu não acredito.

– Ah, não acredita? Pois eu também não acreditei. Mas aconteceu.

– Você tem certeza? Não foi um esbarrão, um...

– Nada. Passou a mão. Eu carregada de compras, sem poder me defender, e ele zupt. E agora?

Pois é. E agora? O que fazer? Era preciso tomar uma atitude. Mas qual? O seu Hermínio do 602 era um bom vizinho. Todos os vizinhos eram bons. O prédio vivia em paz. Fora um pequeno incidente na garagem, uma porta de carro amassada e nunca explicada, e as desconfianças despertadas, e a festinha que um dia passara da conta dos gays da cobertura, nada nunca ameaçara a paz do prédio. Todos se respeitavam. E agora aquilo.

– Você não vai tomar uma atitude, Oscar?

– Vou. Claro. Mas espera um pouquinho.

– Como, espera um pouquinho?

– Espera um pouquinho, Cleide! Você quer que eu bata na porta do 602 e peça satisfações ao seu Hermínio? Boa noite, e que história é essa de passar a mão na bunda da mulher dos outros? Espera um pouquinho.

– Esperar o quê, Oscar?

– Vamos com calma.

O seu Hermínio era mais velho do que o Oscar. Era o inquilino mais antigo do prédio. Aposentado, morava com a mulher e um gato. Não era de falar muito, mas era cortês. Segurava a porta do elevador para os outros. Respondia a comentários sobre o tempo ou o futebol com um “pois é” meio aéreo. Nas reuniões de condomínio, não dava palpites. O seu Hermínio era a personificação da paz num prédio em que ninguém se metia na vida de ninguém. E a Cleide queria que o Oscar soqueasse o seu Hermínio? Ameaçasse contar para a sua mulher, a dona Lurdes? Agisse como um marido ultrajado?
– Você é um marido ultrajado, Oscar.

– Não. Espera um pouquinho.

A Cleide precisava compreender que havia outras coisas em jogo, além da sua bunda. Um contexto maior. A questão diplomática. Uma desavença entre eles e o seu Hermínio fatalmente se espalharia e afetaria a harmonia no prédio. A vizinhança nunca mais seria a mesma. E outra coisa que a Cleide precisava entender: aquele negócio de marido ultrajado era meio antigo. Estavam no século 21. Outra moral. Outras prioridades.

– Quer dizer que passam a mão na bunda da sua mulher e fica por isso mesmo? Você não faz nada?

– Espera um pouquinho. Vamos raciocinar friamente.

Decidiram-se por uma represália branda. Na primeira oportunidade que tivesse, Oscar passaria a mão na bunda da dona Lurdes. O seu Hermínio entenderia o significado do gesto. Ficariam quites. Zero a zero, e não se falava mais no assunto. A paz do prédio seria mantida. E dali a dias aconteceu do Oscar e da dona Lurdes subirem juntos no elevador. E o Oscar zupt na bunda da dona Lurdes. Que se virou para ele com um sorriso e disse:

– O Hermínio sai para jogar bridge todas as quintas, às oito.

Iiiiih, pensou o Oscar. A Cleide me mete em cada uma...

 

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