Palavras de humor. Um menino diferente.

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O menino foi batizado com o nome de “Ádveno”. Seria considerada praticamente uma criança normal, não fosse o tom meio esverdeado de sua pele. Um verde discreto que dependendo da luz mal podia ser percebido. Outro detalhe diferente era as suas sobrancelhas, que ao invés de serem feitas de pelos, eram formadas por pequenos caroços, como se fossem espinhas ou verrugas. Havia também um sinal em sua testa em forma de triângulo virado, mas nada com que se preocupar como diriam seus pais.

O garoto foi crescendo. Aos dois anos conseguia mover pequenos objetos pela casa com a força da mente. Seus olhos ganharam uma cor amarelada e seu cabelo não cresceu. Seus pais achavam que o problema do cabelo poderia ser disfarçado com certa facilidade, e que ele se tornaria popular na escola por conseguir levitar as coisas, ou seja, nada com que se preocupar.

Aos quatro anos ele ainda não falava nada compreensível, emitia alguns grunhidos apenas. Algo como: “pll’kwl’ugl” ou coisa parecida. Seus pais diziam que ele estava falando: “Mamãe”, mas que talvez tivesse a língua presa. O pai ainda brincava dizendo aos que consideravam aquele comportamento estranho, que a tal expressão “pll’kwl’ugl”, na verdade queria dizer: “Leve-me ao seu líder ou arranco suas entranhas pelo umbigo”, e depois soltava boas risadas diante dos olhos arregalados de seus conhecidos. A mãe lhe repreendia com o olhar, mas no fim os dois acabavam afirmando em coro que não havia nada com que se preocupar.

Com pouco mais de cinco anos, o menino viu um pronunciamento do presidente da república pela televisão, começou a apontar para o aparelho e gritar “pll’kwl’ugl!”, “pll’kwl’ugl!”. O pai ficou olhando para ele admirado com aquela atitude. A criança ao perceber que o homem não entendia seu pedido, começou a arranhar a barriga dele, enfiando o dedo em seu umbigo. O pai colocou-o de castigo, e para evitar novas crises do menino, resolveu vender a televisão. Mas é claro que não havia nada com que se preocupar.

Em 2012 o menino completou dez anos, e seus pais o levaram para visitar a capital do País. Não sabiam bem explicar porque decidiram fazer aquilo, simplesmente foram levados por um impulso. Ao chegar lá resolveram passear na sede do governo. Como era a semana da pátria, estava ocorrendo ali um desfile com a presença do presidente, que seguia sorridente em um veículo sem capota através da multidão de pessoas. Ele estava cercado por inúmeros policiais, guarda-costas e com a presença do exército. Um desfile feito com todo cuidado e muita segurança, ou seja, um lugar onde não havia nada com que se preocupar.

Os pais foram se aproximando do cordão de isolamento para esperar a passagem do presidente. Ali, para surpresa de ambos, puderam perceber outras crianças de pele esverdeada e com os tais calombinhos desenhando as sobrancelhas. Eram dezenas de crianças com a mesma aparência de seu filho, porém, sem o tal triângulo na testa. Ao perceberem a chegada do menino, toda aquela criançada baixou levemente a cabeça fazendo uma espécie de aceno com as mãos. Ele então se dirigiu a um dos policiais que impediam a passagem dos civis e ordenou: “pll’kwl’ugl!”. O homem soltou uma risada olhando para os pais do garoto e perguntou o que ele estava dizendo? Mas antes que qualquer coisa fosse respondida, o menino avançou sobre o policial, enfiando sua mão como uma lança no corpo dele, atravessando-o pelo umbigo e arrancando suas entranhas. Os outros meninos fizeram o mesmo com os demais guardas, juntando as mãos e lançando raios de seus olhos em direção aos carros de patrulha, fazendo com que os veículos explodissem. Dois meninos voaram em direção ao presidente. A partir daquele momento os pais de Ádveno começaram a se preocupar...

Texto de Antonio Brás Constante
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