Humores e hormônios. O último texto de Moacyr Scliar.

By
palavras, educação, ler e escrever


O escritor gaúcho Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras, escrevia para o caderno Vida do jornal Zero Hora. Nesses textos ele falava das doenças de forma simples e bem humorada. Antes de se internar no hospital para fazer uma cirurgia, escreveu o texto abaixo e mandou ao jornal para garantir a publicação caso não conseguisse por estar no hospital. Infelizmente o escritor teve um AVC e veio a falecer no dia 27 de Fevereiro. Este texto é o último escrito por esse médico que múltiplos talentos e que está fazendo muita falta.

Hipócrates, médico grego que viveu no quinto século antes de Cristo e que é considerado o pai da Medicina (sobretudo por ter deixado de lado as crenças mágico-religiosas privilegiando o raciocínio e o estudo dos fenômenos naturais no que dizia respeito ao organismo), afirmava que nosso temperamento é condicionado pelo que chamava de humores, e que eram quatro: o sangue, a linfa, a bile amarela e a bile negra. O tipo sanguíneo, por exemplo, seria um cara energético, dinâmico, ativo; já a bile negra (um fluido imaginário, na verdade) deixaria a pessoa melancólica.

Hipócrates estava errado, mas não muito. Há substâncias que condicionam, sim, características pessoais; mas não são os humores, são os hormônios, cuja descoberta é muito mais recente.

Tomem, por exemplo, a testosterona, cujas taxas são cerca de 30 vezes maiores nos homens do que nas mulheres, caracterizando muito daquilo que a gente poderia chamar de perfil masculino, os caracteres sexuais secundários (barba, voz grossa), a agressividade. Este hormônio se eleva em circunstâncias especiais; por exemplo, em torcedores que veem seu time entrar em campo. Mas a testosterona também pode baixar, inclusive em homens. Recentemente, foi divulgado um trabalho a respeito, mostrando que as lágrimas de uma mulher diminuem a taxa do hormônio em homens, tornando-os menos agressivos, mais compassivos. A dúvida de imediato surge: isto é resultado do fato de ver a mulher em pranto? Não. Os cientistas trataram de evitar que os homens estudados vissem as mulheres chorando; impregnaram fragmentos de papel absorvente com as lágrimas e fizeram os homens cheirá-los, com o que a concentração da testosterona caiu cerca de 15%.

Somos, então, condicionados pelos nossos hormônios? Só em parte. Não devemos esquecer que o ser humano é um ser racional e emocional. É bom solidarizar-se com o sofrimento de pessoas, mas não precisamos baixar a testosterona para isto. Basta-nos a sinceridade, para seguirmos aquilo que temos de melhor em nós próprios. E que não depende de nenhuma substância, venha ela de fora ou de dentro do nosso organismo.


Se gostou do post subscreva nosso FEED. 
Cópias não permitidas www.blogdocatarino.com 
Conheça o SHOPPING DO CATARINO 
Protected by Copyscape Online Plagiarism Check

Um comentário:

  1. Que texto maravilhoso!
    Muitíssimo interessante este estudo; fiquei realmente surpreso.
    Parabéns pelo post e obrigado por apresentar-me um texto deste escritor brasileiro.

    O que ele afirma é verdade: "É bom solidarizar-se com o sofrimento de pessoas, mas não precisamos baixar a testosterona para isto."
    Agir com sinceridade e humanismo nestas horas é essencial para uma boa relação com o próximo.
    E para isso não usufruiremos de nenhuma substância; unicamente sentimentos... bons sentimentos!

    Um forte abraço,
    Lucas Neves.

    ResponderExcluir

Deixe sua opinião, ela é muito importante para nosso trabalho.

Popular Posts