Crônica. O mundo novo é assustador.

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Crônica. O mundo novo é assustador.

Estamos preparados para entender e aceitar as mudanças que ocorrem no mundo em que vivemos? Elas ocorrem de forma rápida e sorrateira e quando percebemos estamos num mundo estranho. Na crônica abaixo David Coimbra, colunista do jornal Zero Hora, fala sobre esse interessante assunto. O texto foi publicado no caderno Donna.

O mundo muda muito rápido. De um dia para outro, todo um estilo de vida se torna ultrapassado. Vi com meus olhos o falecimento da máquina de escrever, da fita cassete, do videocassete, das calças abotoadas no estômago. As mulheres de seios pequenos, onde elas estão? Batendo à máquina? Ouvindo um som na fita cassete? Nunca tive nada contra mulheres de seios pequenos, desde que viessem acompanhados por pernas longas. Só que elas mudaram.

Agora todas as mulheres têm peitos de bola de futsal e umbigos altos. Peitões eu sei como elas conseguiram: há exercícios especiais para desenvolver seios, sabia? E, se a ginástica localizada não funcionar, elas apelam para o silicone. Bom. Mas como os umbigos foram içados? Observe: antes os umbigos eram lá embaixo, no extremo sul da barriga, nas fímbrias do púbis. Agora estão um palmo para cima, no meio do estômago. Como as mulheres levantaram seus umbigos? Ainda descubro isso.

Eu tinha uma coleção de discos e um dia me disseram que era ridículo ter disco, que eu tinha que comprar CD. Comprei CDs e aí me disseram que não se compra mais CD. Então não compro mais disco, nem CD, nem nada. Não ouço música.

Meu celular está sempre atrasado. O Potter, o celular dele chuleia e dá nó em gravata. O meu mal e mal fala.

Uma vez eu tinha uma TV com seletor de canais. Virei motivo de piada. Comprei uma de plasma e outro dia alguém se espantou:

– Tu não tens agá dê???

Maldição.

Já decidi que não compro mais nenhuma dessas tecnologias que mudam de seis em seis meses. Só vou comprar quando lançarem o último. Só gasto meu dinheiro com o último modelo desses troços.

Tudo se transforma, já dizia Lavoisier. Só que se transforma rápido demais. O Orkut já está ultrapassado. Justo agora que eu ia entrar no Orkut. É por isso que não tenho tuíter. Meu tuíter é fake. É muito fino ter um fake, embora ninguém mais diga que algo é fino.

Agora tem o seguinte: poucas mudanças me surpreenderam tanto quanto a extinção do ventil. Um dia, estava jogando bola, fui chutar uma falta e lembrei do Flávio Minuano. O Flávio Minuano não errava falta. O segredo dele era recuar um passo e meio, nada mais nada menos do que um passo e meio da bola. Depois ele punha o pé esquerdo ao lado dela. Com cuidado, com critério. E, aí sim, chutava. Mas tinha de chutar no lado do ventil, exatamente no lado do ventil. A bola subia por cima da barreira, fazia uma curva e entrava no ângulo. Sempre entrava.

O Flávio Minuano chutava de efeito. O Jair Rosa Pinto chutava forte. Mas também batia no ventil. Outro mestre, o maior deles, Roberto Rivellino: no ventil.

Então fui chutar no ventil. Peguei a bola, procurei o ventil e... com um milhão de pulmões assopradores, onde está o ventil??? Não havia ventil. As bolas não têm mais ventil! Como eles enchem as bolas? Elas não esvaziam mais? Daqui a 1.500 anos todas as bolas produzidas nesse tempo todo continuarão cheias? O que é feito das fábricas de bombas de encher bola? Quantas pessoas não foram desempregadas só porque alguém tirou o ventil das bolas... O mundo novo é assustador.

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