Crônica. O que pode ser dito nos sonhos.

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Crônica. O que pode ser dito nos sonhos.

Não controlamos os sonhos e nem as palavras que são ditas nos sonhos, mas uma frase dita pode causar muita confusão. Na crônica abaixo Luiz Fernando Veríssimo conta a história do caro que disse durante um sonho: Sandra, Sandra.

Diga-se a favor da Cecilinha que ela esperou o marido acordar antes de fazer a pergunta. Não acordou o Tonho a tapa. Não tentou sufocá-lo com o travesseiro. Esperou. E quando o Tonho finalmente abriu os olhos, perguntou:

– Quem é a Sandra?

O Tonho piscou. Olhou em volta como se tivesse acordado numa ilha exótica, sem reconhecer nada. Depois fixou-se no rosto da mulher como se ela fosse da fauna da ilha. E disse:

– Ahn?

– Quem é a Sandra?

– Quem?

– A Sandra. Você estava sonhando e disse o nome dela. Sandra, Sandra... Assim. Nesse tom. Quem é ela?

– E eu sei?

– O sonho era seu. Você não se lembra de quem estava no seu sonho?

– Eu nem me lembro do sonho!

Cecilinha não se convenceu. Decidiu ficar acordada toda a noite enquanto o Tonho dormia, para flagrar outro “Sandra, Sandra...” e aí sim, acordar o Tonho a tapa para saber quem era. Dormiria de dia, quando o Tonho estivesse no trabalho. À noite, manteria sua vigília. E claro que o Tonho também passou a dormir mal, com o risco de sonhar, dizer o nome “Sandra” e ser atacado pela mulher. Ninguém pode controlar os próprios sonhos. Ninguém escolhe o que vai dizer enquanto dorme.

De um ponto de vista puramente legal, ou mesmo ético, Tonho tinha toda a razão para se queixar da mulher. Aquilo não era justo. Um homem inconsciente é um homem indefeso. Um homem dormindo não pode ser responsabilizado pelos seus atos, e muito menos pelo que diz, durante um sonho. Nada do que ele fala dormindo pode ser usado contra ele, pois ele estaria se autoincriminando sem, literalmente, saber o que diz.

Nenhum destes argumentos comoveu a Cecilinha.

– Não me enrola. Quem é a Sandra?

– Eu não conheço nenhuma Sandra!

– Quem é a mulher dos seus sonhos?

– Eu não sei!

E a verdade é que o Tonho não sabia mesmo. Não conhecia nenhuma Sandra. Se sonhava com uma Sandra, esquecia o sonho. A Sandra podia muito bem acabar com o seu casamento sem nunca ter existido, sem aparecer nem em sonho. Sem nunca ter a cabeça dele entre seus seios para ele dizer “Sandra, Sandra...” daquele jeito, naquele tom. Não adiantou ele inventar que Sandra era o nome de uma tia querida, morta havia anos. Segundo a Cecilinha, ninguém diria “Sandra, Sandra...” daquele jeito para uma tia. Não adiantou ele, uma noite, fingir que dormia e dizer “Cecilinha, Cecilinha...” no mesmo tom. Só serviu para ela chamá-lo de farsante e piorar o clima entre os dois.

E como era impossível continuar com aquele “Sandra, Sandra...” assombrando seu casamento – e como os dois andavam irritadiços com a falta de sono – resolveram se divorciar.


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Fonte: Caderno Donna Zero Hora.
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Um comentário:

  1. Quer as Sandras existam ou não, quando elas se pavoneiam na imaginação feminina, apoiadas por palavras sonhadas... não há nada a fazer... rsrs

    Abraços!

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