As palavras e a sensibilidade ao dizê-las.

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As palavras e a sensibilidade ao dizê-las.

Todas as atividades humanas, emocionalmente desafiadoras, envolvem o manejo da sensibilidade, umas mais que outras, mas nenhuma que prescinda dela.

Os médicos precisam aprender a conduzir a ameaça da morte com esperança, e descobrir que na doença, o oposto de medo não é a coragem, mas a fé. O paciente precisa acreditar em quem vai cuidar dele, para que qualquer tratamento alcance seu limite de competência.


Quando uma nova turma de residentes chega ao hospital, fica evidente a carência das nossas universidades que ensinam a usar a tecnologia mais sofisticada, mas ignoram a importância de transmitir os fundamentos básicos da arte de ser médico, que muitas vezes dependem de virtudes inatas de cada um.

Um dia desses, contei aos alunos a história de um mendigo que se acomodou numa das pontes do Sena em Paris e lá, alheio à beleza inigualável da uma tarde de primavera, estendeu um farrapo de cobertor, e dispôs um velho chapéu coco que apoiava uma cartolina onde alguém escrevera a giz: “Me ajudem porque sou cego!” No fim da manhã, não havia moedas no chapéu.

Um publicitário que passava por ali, tomou o giz, mudou o texto da cartolina e foi embora. Quando voltou, no final da tarde, o chapéu transbordava, e o cego, reconhecendo seu benfeitor pelos passos, perguntou, curioso: “O que você escreveu na minha cartolina?” O publicitário respondeu: “Basicamente a mesma coisa, só que em outras palavras.”

E foi embora sorrindo, porque o pobre cego nunca saberia que ele escrevera simplesmente: “Me ajudem porque é primavera em Paris e eu não posso vê-la”.

Na relação com pessoas fragilizadas pela doença, é impressionante a força que pode ter um mero jogo de palavras. Infelizmente, há médicos que não percebem que anunciar um risco cirúrgico de 10% é completamente diferente de prognosticar uma chance de sucesso de 90%. É triste conviver com a insensibilidade dos que acreditam que estes números querem dizer, rigorosamente, a mesma coisa.


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Fonte: Artigo escrito pelo médico JJ Camargo
Publicado no Caderno Vida do Jornal Zero Hora.
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7 comentários:

  1. Catarino ,

    Bom dia,

    Amigo interessantíssimo o texto, as vezes estamos sempre falado de palavras, formas de expressão e teu texto veio a acrescentar, e o que mais me chamou a tenção foi a história do cego mendigo,e pude perceber como a nossa forma de expressar muda uma situação,este é o segredo da conquista e do otimismo,fazer com que as pessoas não sintam pena mas sensibilidade, sentimento, despertando o seu lado interior...a forma com que falamos e o que falamos podem fazer com que um enfermo tenha vontade de se curar, podemos provocar uma reação em quem ja havia desistido, tudo depende da nossa forma de expressar e agir...

    Amei o texto, e aproveito pra lhe desejar um feliz natal com paz , saúde, harmonia, e seu ano novo chegue repleto de realizações e bençãos...

    Abraçoss

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  2. Cecília
    Muito obrigado. Tenha você também um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de realizações.

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  3. Oi, Catarino! Seu texto é verdadeiro, que grande diferença faz a maneira como as coisas são ditas! Como diria Clarice Lispector, "a palavra é o meu domínio sobre o mundo". Usá-la com sabedoria, e para o bem, faz toda a diferença!
    Um abraço!
    www.revoltaeromance.blogspot.com

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  4. Catarino...
    Que oportuno esse texto,meu querido!
    Minutos atrás escrevi ao jornalista Paulo Santana (ZH), que sabes, sobre essa falta de sensibilidade em dizer sobre um prato que pediu num restaurante e achou catastrófico (suas palavras).

    Falei o mesmo. Que existem várias maneiras de dizermos algo e que, absolutamente, aquela forma foi desumana.

    Vou te mandar minha carta a ele por email.

    beijos, FELIZ NATAL, Catarino

    Maria Marçal - Porto Alegre - RS

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  5. Bia
    É verdade, temos que ter cuidado com o uso das palavras.
    Agradeço sua participação.

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  6. Maria
    Li a coluna do Santana, ele costuma fazer isso, uma vez ele descreveu quem fazia o melhor prato que gostava e os outros restaurantes não ficaram felizes, pois ele não teria como provar todos para saber que era o melhor.
    Agradeço sua participação. Feliz Natal

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