O
ex-jogador de futebol Sócrates faleceu no último dia quatro de
Dezembro, foi uma grande perda para todos os que admiram o futebol
bem jogado. Sócrates era um jogador diferenciado e usava o calcanhar
como ninguém. No texto abaixo o escritor Luis Fernando Veríssimo
conta uma história de um encontro que teve com Sócrates na Itália.
Nos
cruzamos algumas vezes depois disso, mas a única vez em que estive
com o Sócrates foi na sua casa em Florença, quando ele era ídolo
no Fiorentina. Tínhamos marcado um encontro com o Araújo Neto,
correspondente do Jornal do Brasil em Roma, que estava vindo a
Florença para entrevistá-lo. O Araújo nos carregou junto para a
entrevista. Não foi difícil localizar a casa do Doutor nos
arredores de Florença. O motorista do táxi sabia exatamente como
chegar lá. A casa do estupendo Socrate? Como não iria saber?
A
casa era uma mansão toscana no meio de ciprestes e de um grande
gramado. Quando chegamos, um dos filhos do jogador estava tendo seu
cabelo cortado ao ar livre. Não deu para identificar, no que parecia
ser o staff permanente da casa, quem era brasileiro e quem era
italiano. O próprio barbeiro podia ser da casa ou recrutado na
vizinhança para a honrosa missão. Sentamo-nos no quintal também, e
conversamos a tarde inteira. Infelizmente, só o que sobrou da
conversa foram as fotos. Não me lembro do que falamos. De Florença
e de como a família estava se adaptando, provavelmente. E de
futebol, certamente.
Era
uma oportunidade para expor minha teoria sobre o passe de calcanhar,
já que estava na presença de um notável especialista no assunto.
Eu achava que o passe de calcanhar era um pouco como o palavrão no
teatro. Quase sempre era desnecessário, não avançava a ação da
peça – ou da jogada, no futebol –, mas nunca deixava de provocar
uma reação na plateia. Por mais que se repetissem e se
banalizassem, o passe de calcanhar e o palavrão jamais perderiam seu
poder de surpreender o público.
Tenho
certeza de que não mencionei minha tese naquela agradável tarde
florentina, primeiro porque sou do tipo que prefere ouvir as teses
dos outros em vez das suas, segundo porque os passes de calcanhar do
Sócrates, ao contrário dos palavrões no teatro, tinham a
particularidade de nunca serem gratuitos, ou só para impressionar.
Com Sócrates, taquinho não era brilhatura.
Mais
importante do que surpreender o público, era surpreender o
adversário. E esta era uma das muitas maneiras em que Sócrates era
um jogador – e uma pessoa – diferente. Não se esperasse dele o
convencional.
O
Araújo Neto já se foi, o Sócrates já se foi, restam as vagas
lembranças de uma tarde sob os ciprestes, há muitos, muitos anos.
Fonte: Jornal Zero Hora.
Fonte: Jornal Zero Hora.


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