Palavras. Um engano pequeno.

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Palavras. Um engano pequeno

Desde que o médico dissera ser impossível engravidar, a alegria fugira da vida de Flávia. Afinal, nunca fizera por merecer esse castigo de Deus. Sentia-se uma mulher pela metade, incapaz de cumprir a mais nobre das tarefas: ser mãe.

- Era melhor morrer!

E tudo em volta perdera o encanto. Dançarina das melhores, já não mais se animava a aceitar os convites para festas e boates. Pra quê? Numa dessas noitadas conhecia alguém por quem se engraçasse, namorava, casava...

- Casar por casar? Pra ter um homem do lado? Se não posso ter filho, prefiro morrer solteira.

Foi quando leu no jornal a notícia de que um médico famoso era filho adotado. Ah! Nunca pensara na adoção. Titubeou, todavia. E se não conseguisse se tornar, para uma criança adotada, a mãe de que o menor precisava? Ficou assim coisa de uma semana até que uma amiga do trabalho( vendia selo nos Correios) lhe deu a sugestão salvadora:

- Tem tanto menor abandonado na rua. Pega um, leva para casa e faz uma experiência. Se der certo com ele, ainda mais dará com um que você adote oficialmente.

Como não? Tinha sentido!

Passou, então, a sair de noite, pelos escuros dos becos, à procura dos menores sem lar. Nem fazia mal se fosse bem pretinho ou muito magro. Um menor. Um qualquer, a quem ajudaria algum tempo, dando-lhe teto e comida e com quem praticaria, para algum dia, quem sabe...?

- Moça, me da um cruzeiro?

O menor a olhava de olho comprido e molhado. Uma camiseta surrada e cheia de rasgões, pés descalços.

- Cadê seu pai?

- Não tenho pai, não, moça.

- E sua mãe?

- Não sei dela, não senhora. Nunca soube.

- Quer ir lá para casa?

Acendeu-se nos olhos do menor um brilho de gratidão e incredulidade. Flávia percebeu. A amiga dos Correios amanhã ficaria sabendo. Estava no começo do plano que já andava imaginando impossível, visto já fazer duas semanas que procurava um menor nas vielas, e tudo que conseguira fora crianças a lhe oferecer chicletes e limões.

- Venha comigo.

Não conversaram durante a viagem. Flávia apenas imaginava as roupinhas e brinquedos que compraria para ele; o colégio onde seria matriculado (era capaz de nem saber ler, tadinho); o clube onde o levaria para o ensinar a nadar. Deixa que quando Deus tarda vem a caminho. E – já pensava – um filho adotado tem até mais valor; faz da mãe adotiva uma quase heroína. No seu caso bastante acrescido, porque além da adoção – que faria! – havia a recuperação de um pobre menor abandonado, medicante de esmolas e restos de comida nos becos sujos e nos fundos de restaurantes. Chegaram. Subiram. O menor ia dois passos atrás dela, calado, meio sem acreditar no presente que lhe caía às mãos. Entraram. Se viram.

Tadinho. Tão sujo.

- É – disse o menor, abaixando a cabeça, envergonhado.

- Vou lhe dar um banho!

A água quente esfumaçou o banheiro. Flávia tirou a camisinha dele e, num salto, ao lhe arrancar a calcinha, recuou até o espelho embaçado.

- Quantos anos você tem, neném?

- Quarenta – respondeu o anão. Porque era um.

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Fonte: Livro: O fim do mundo é ali. Chico Anysio. 
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